Opinião

O professor é essencial? Homeschooling, construtivismo e o mito da exclusividade escolar

Por Sergio de Souza para www.sergiodesouza.com.br

Introdução

Poucas afirmações são tão repetidas no debate educacional quanto esta:
“Sem o professor, não haveria saber.”

A frase, embora sedutora, carrega um problema conceitual sério. Ela confunde importância institucional com exclusividade epistemológica. Professores são essenciais para o funcionamento do sistema educacional moderno, mas isso não significa que detenham o monopólio do conhecimento, nem que a escola seja o único ambiente legítimo para aprender.

Esse equívoco torna-se ainda mais grave quando usado como argumento contra o homeschooling, especialmente em países onde a educação domiciliar é proibida ou severamente restringida — inclusive para os próprios filhos de professores.

Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre:

  • a ideia de que apenas a escola forma pessoas;
  • a contradição entre construtivismo e rejeição ao homeschooling;
  • a falibilidade do ensino institucional;
  • a confusão entre diploma e saber;
  • e o direito ao aprendizado por vias não formais, porém sérias e científicas.

Professor é essencial, mas não exclusivo

Não fosse o professor de Medicina, não haveria médicos.
Não fosse o professor de Direito, não haveria advogados.
Não fosse o professor de Contabilidade, não haveria contadores.

Essas afirmações são verdadeiras dentro de um modelo institucional específico, no qual o exercício profissional é regulado por diplomas e conselhos. Mas elas não provam que o saber nasce exclusivamente da escola, nem que o aprendizado depende, obrigatoriamente, da mediação institucional.

Historicamente, o conhecimento sempre precedeu a escola:

  • filósofos antes das universidades;
  • cientistas autodidatas;
  • músicos, artesãos e matemáticos formados fora de sistemas formais.

A escola organiza, certifica e padroniza o ensino.
Ela não cria o saber do nada.


A contradição fundamental: construtivismo versus homeschooling

Aqui surge uma das maiores incoerências do debate educacional contemporâneo.

Se, como defendem os construtivistas, o conhecimento:

  • não é transmitido, mas construído;
  • já está, em potência, no sujeito;
  • emerge da interação com o meio;

então por que razão o homeschooling é tratado como ameaça, e não como uma possibilidade legítima de ambiente de aprendizagem?

Se o conhecimento não precisa ser “depositado”, por que:

  • apenas a escola seria autorizada a mediar esse processo?
  • pais seriam considerados incapazes a priori?
  • tutores e professores particulares seriam descartados?

A rejeição ao homeschooling, nesse contexto, não é pedagógica.
É institucional.


Uma pergunta incômoda (e nunca respondida)

Se somente a escola é apta a formar pessoas, então por que:

  • os filhos dos próprios professores não podem optar pelo homeschooling?

Por que aqueles que:

  • ensinam;
  • avaliam;
  • aplicam provas;
  • defendem o modelo escolar;

não têm o direito de educar seus próprios filhos fora dele?

Se o ensino escolar fosse tão evidentemente superior, não precisaria ser imposto.
Seria naturalmente escolhido.


A falibilidade do professor e o mito da infalibilidade escolar

Reconhecer a importância do professor não implica tratá-lo como infalível.

Professores erram.
Erram como qualquer ser humano.

Erram, inclusive, em aspectos elementares daquilo que ensinam:

  • concordância verbal;
  • ortografia básica (“encima”, “nada haver”);
  • operações matemáticas simples.

Isso não desqualifica pessoas, mas desmonta o argumento da superioridade automática da escola.

A obrigatoriedade do ensino escolar só seria logicamente defensável se:

  • professores fossem isentos de erros;
  • diplomas garantissem domínio pleno do conteúdo;
  • escolas assegurassem, no mínimo, o básico.

Nada disso é verdadeiro.


A matemática elementar esquecida: quando o problema é a base

Outro sintoma grave da fragilidade do ensino básico e médio aparece em algo ainda mais elementar do que erros gramaticais: operações matemáticas básicas.

Dividir um número por 10, 100 ou 1.000 é uma das primeiras habilidades do sistema decimal:

  • desloca-se a vírgula uma, duas ou três casas à esquerda;
  • preenche-se com zeros, quando necessário.

Isso não exige calculadora.
Exige apenas compreensão básica.

Ainda assim, essa operação causa dificuldade não apenas entre alunos, mas também entre profissionais formados — inclusive professores.


O exemplo das milhas: matemática básica na vida real

Considere um caso simples e cotidiano.

Mil milhas aéreas custam R$ 25,00.
Qual é o valor de uma milha?

A conta é direta:

R$ 25,00 ÷ 1.000 = R$ 0,025 por milha.

Nada além de deslocar a vírgula três casas à esquerda (três zeros de 1.000, três casas à esquerda. Elementar!.

Ainda assim, observa-se que até professores do ensino fundamental demonstram dificuldade em realizar esse cálculo, sem calculadora ou com insegurança conceitual.

Esse exemplo é revelador porque:

  • não envolve matemática avançada;
  • não envolve abstração complexa;
  • envolve apenas alfabetização matemática.

Quando alguém não consegue calcular o preço unitário de algo tão simples, o problema não é pontual — é estrutural.


Diploma não é sinônimo de saber

O diploma certifica que alguém:

  • frequentou uma instituição;
  • foi avaliado;
  • respondeu corretamente a determinadas perguntas.

Ele não garante:

  • domínio permanente do conteúdo;
  • rigor conceitual;
  • atualização constante;
  • excelência didática.

Saber pode ser adquirido:

  • por estudo autônomo;
  • por leitura séria;
  • por prática;
  • por pesquisa independente.

Negar isso é negar a própria história da ciência.


“Lugar de fala” e a interdição do conhecimento

Outro argumento recorrente é o chamado “lugar de fala”, segundo o qual apenas determinados grupos estariam autorizados a opinar ou ensinar.

Aplicado à educação, isso leva a um absurdo:

  • pessoas não formadas não poderiam saber;
  • pais não poderiam ensinar;
  • autodidatas seriam deslegitimados;
  • o conhecimento ficaria restrito ao diploma.

Isso não é ciência.
É corporativismo epistemológico.

O conhecimento não pertence a uma categoria profissional.
Pertence a quem o busca, o compreende e o aplica.


Comparações internacionais: o mundo não colapsou

Países como:

  • Estados Unidos;
  • Canadá;
  • Reino Unido;
  • Austrália;
  • França (com regulação);

permitem o homeschooling de forma legal.

Nenhum deles colapsou educacionalmente por isso.
Em muitos casos, estudos indicam desempenho igual ou superior em avaliações padronizadas, além de:

  • maior envolvimento familiar;
  • personalização do ensino;
  • respeito ao ritmo individual.

A proibição absoluta, portanto, não se sustenta empiricamente.

Há ainda o caso emblemático da jovem que foi aprovada em vestibular após ter cursado o Ensino Médio com seus próprios pais, fora da escola formal. Apesar de ter demonstrado, de forma objetiva, domínio do conteúdo exigido, sua matrícula foi inicialmente questionada, pois, segundo os chamados “donos do saber”, ela não possuía o diploma — o “canudo” — do Ensino Médio. O conhecimento comprovado não bastava; sem a chancela institucional, ele simplesmente não existia.


Conclusão

Professores são essenciais.
A escola é importante.
O ensino institucional tem valor.

Mas nenhum deles é infalível, exclusivo ou absoluto.

Quando:

  • erros básicos persistem;
  • o essencial não é garantido;
  • o diploma substitui o saber;
  • alternativas são interditadas;

o debate deixa de ser pedagógico e passa a ser ideológico.

Homeschooling não é o problema.
O problema é um sistema que, mesmo obrigatório, não assegura o básico, mas ainda assim reivindica exclusividade.

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